Mudanças na TV Cultura preocupam conselheiros

Cadão Volpato, que voltará a apresentar o Metrópolis (Foto: Catherine Ferraz)

Conselheiros da Fundação Padre Anchieta estão apreensivos com as mudanças em curso na TV Cultura, emissora parcialmente mantida pelo governo do Estado de São Paulo.

O último motivo de preocupação envolve o programa Metrópolis. Na semana passada, a Cultura anunciou a contratação do jornalista Cadão Volpato, que a partir de meados de setembro deverá ser seu apresentador e, especula-se, diretor. Helio Goldsztejn, que comandou o Metrópolis durante 18 dos 22 anos de existência da revista cultural, terá novas funções: irá reestruturar o Vitrine.

Ex-presidente da fundação e conselheiro vitalício, Jorge da Cunha Lima protestou: “Consideramos ainda que o Metrópolis é o melhor programa de informação cultural da emissora e que nós víamos com apreensão a perspectiva de mudanças”, escreveu em seu blog, referindo-se a intervenção feita em reunião do conselho curador, na última segunda-feira. No encontro, João Sayad, atual presidente da fundação, apresentou seu plano de reestruturação.

A longo prazo, o projeto de Sayad visa reduzir a TV Cultura a uma simples compradora de programas, realizados por produtoras independentes ou por emissoras estrangeiras. Conforme este blog publicou em primeira mão no último dia 4, sua meta é demitir até 1.400 dos 1.925 funcionários, enxugando os custos da emissora dos atuais R$ 230 milhões por ano para R$ 80 milhões. Sayad pretende até vender os estúdios da Cultura.

Isso é o que ele planeja. Se vai conseguir, são outros 500. Neste ano, devido a restrições legais (funcionários celetistas não podem ser demitidos até dezembro), Sayad deverá cortar cerca de 450 profissionais, que trabalham como pessoas jurídicas (são contratados como se fossem empresas). A prestação de serviços para terceiros (Assembleia Legislativa, Poder Judiciário), que rendia R$ 60 milhões ano, não será mais realizada. Para tapar um rombo de mais de R$ 10 milhões, programas como o Login serão extintos. O Manos e Minas, sobre a cultura da periferia, já deixou de existir.

Sayad queria também cortar as transmissões das apresentações da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a Osesp, mas encontrou resistência da elite. Assim escreveu em seu blog Jorge da Cunha Lima, sobre a reunião do conselho na última segunda-feira:

Jorge da Cunha LIma, em foto de 1995

“Eu, representando o comitê de programação [da TV Cultura], fiz ressalvas quanto à idéia de eliminar as gravações e transmissões ao vivo dos concertos da Osesp, a melhor orquestra sinfônica do Brasil, em favor da divulgação de concertos da Filarmônica de Berlim, cujos direitos de transmissão podem ser comprados a dois mil dólares. Da mesma forma, embora elogiando o acerto de transmitir os documentários do É Tudo Verdade, não aceitávamos a eliminação da transmissão dos documentários do Doc TV, o melhor projeto cultural do MinC [Ministério da Cultura]”.

Volta ao passado

Para Cunha Lima, a troca da Osesp e de documentários brasileiros por concertos de orquestras europeias e filmes estrangeiros representa um retrocesso, mais exatamente “uma volta ao conceito da grande cultura erudita, praticada no fim do século XIX”. Essa é a sensação, aliás, de boa parte das pessoas que trabalham na Cultura.

Profissionais mais antigos da emissora vêem a contratação de Maria Cristina Poli e de Cadão Volpato, além do retorno do jornalista Alexandre Machado, como uma “volta ao passado”. Poli apresentou o Vitrine nos anos 1990. Volpato, vocalista da Fellini, banda cult dos anos 1980, também já trabalhou na Cultura _foi apresentador do próprio Metrópolis, por um curto período, demitido que foi.

A propósito, as manifestações de Cunha Lima sobre as mudanças na TV Cultura integram um texto em que ele rebate o secretário de Estado da Cultura, Andrea Matarazzo. Em entrevista publicada pelo blog Poder Online na última quinta-feira, Matarazzo afirmou que a Cultura “é uma ficção”.

“A TV Cultura é uma ficção. É cool gostar da TV Cultura, mas ninguém assiste. A programação não está na grade de ninguém”, disse o responsável pela política cultural de São Paulo, evidenciando um racha no PSDB.

Cunha Lima reagiu: “A TV Cultura não é o caos que se deseja vender. Ainda é a melhor televisão pública do Brasil”.

Por: Daniel Castro, R7

Análise: TV Cultura não vai acabar, mas será menor

A publicação aqui neste blog, ontem, de que o novo presidente da TV Cultura, João Sayad, tem um plano de reestruturação que pretende reduzir a produção de programas próprios e demitir até 1.400 de 1.800 funcionários, levou muita gente a acreditar que a TV Cultura vai acabar.

É muito pouco provável que a TV Cultura acabe, por mais que o atual governo do Estado de São Paulo a tenha como um estorvo, não como uma TV pública com uma nobre função social, a de produzir programas que as redes comerciais, por seguirem a lógica do mercado (a da audiência a qualquer custo), não produzem.

Como este blog informou ontem (leia aqui), a TV Cultura já está em processo de enxugamento. A captação de recursos (R$ 50 milhões por ano) com publicidade comercial será reduzida. A produção de programas para instituições públicas, como a Assembleia Legislativa de São Paulo e a TV Justiça, que renderam R$ 60 milhões em 2009, será interrompida gradativamente.

Isso tornará a TV Cultura mais enxuta, mas não o suficiente para eliminar todos os funcionários que Sayad almeja. O presidente da Cultura, no máximo, conseguirá neste ano reduzir os profissionais que prestam serviços em regime de pessoa jurídica, que são entre 600 e 800.

Por causa da legislação eleitoral, a maioria dos funcionários, composta por celetistas (com carteira assinada), só pode ser demitida em 2011. E como esses funcionários são antigos, demiti-los custa muito caro. Sayad não tem dinheiro para pagar as indenizações. Para reduzi-los a 400 (ou a 1.000, tanto faz), precisa do apoio do próximo governador de São Paulo.

A eventual eleição de Geraldo Alckmin, do PSDB que governa São Paulo há mais de 15 anos, não garante apoio ao plano de reestruturação da Cultura idealizado por Sayad. Pelo contrário, são grandes as chances de Sayad vir a ter desafetos no comando das finanças e políticas culturais do Estado.

O plano de Sayad tem uma “pegadinha”: ele deixa para o próximo governador paulista a tarefa de decidir se a TV Cultura, finalmente, deixará de ser “cara e ineficiente”. Se optar por torná-la “barata e eficiente”, arcará com o ônus da demissão de centenas de trabalhadores ruidosos.

A afirmação de que a TV Cultura é ineficiente pode ser, hoje, até verdadeira. Mas ela não é cara. Tem um orçamento de R$ 230 milhões anuiais, dos quais só R$ 70 milhões rigorosamente são bancados pelo contribuinte (o restante vem da publicidade e da prestação de serviços). Também é questionável a insatisfação do Estado com o desempenho da Cultura no Ibope. Audiência não deveria ser prioridade para uma TV pública.

A TV Cultura, aparentemente, virou um “abacaxi” para o Estado porque ela não rende votos. Ninguém vota neste ou naquele candidato porque ele é a favor da produção de programas educativos para crianças e adolescentes.

Pelo número de postos de trabalho que oferece, a TV Cultura também não é uma máquina significativa de “aparelhamento” (o uso de instituições públicas para empregar partidários de quem está no poder). Por sua audiência relativamente pequena, não vale a pena usar seu jornalismo como instrumento de divulgação do governo. Ou seja, a TV Cultura só é interessante para o telespectador.

Por: Daniel Castro, R7

TV Cultura apaga críticas de ombudsman em site oficial

O jornalista Ernesto Rodrigues, ex-ombudsman da Cultura (Foto: Reprodução)

A TV Cultura apagou de seu site todos os textos escritos pelo jornalista Ernesto Rodrigues, que foi ombudsman da emissora até a semana passada.

Rodrigues constantemente fazia críticas à emissora. Abordava assuntos delicados, como o recente afastamento de Gabriel Priolli do comando do departamento de jornalismo. Priolli perdeu o posto após determinar a realização de uma reportagem sobre pedágios nas rodovias paulistas, o que incomodou o governo do Estado de São Paulo.

No site da TV Cultura, não há mais nenhum link para o blog mantido por Ernesto Rodrigues. Os links que aparecem nas buscas do Google remetem à home do site da emissora, e não mais aos textos do jornalista. Só se consegue ler escritos de Rodrigues graças ao armazenamento do Google, clicando-se em “cache”.

O blog era um canal direto com os telespectadores. Nele, por exemplo, Rodrigues publicou as explicações do presidente da TV Cultura, João Sayad, sobre o afastamento de Priolli (uma delas era a de que o jornalista mandou realizar a reportagem sobre pedágios sem comunicar seu superior hierárquico, Fernando Vieira de Mello).

Segundo a assessoria de imprensa da TV Cultura, o mandato de Rodrigues terminou no último dia 30 (seu último texto é de 16 de julho). A emissora, diz a assessoria, está procurando um substituto. A Cultura não se pronunciou sobre o “sumiço” dos textos do ex-ombudsman.

Por: Daniel Castro, R7

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