RELEMBRE: “A Praça é Nossa” explode com 44 pontos em SP (1988)


Com a modéstia de quem acha que não nasceu para Vênus Platinada e o realismo de quem está mais para a Vila Guilherme paulistana do que para o Jardim Botânico carioca, a direção do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), a rede de Sílvio Santos, sonhava com um ibope de 15 pontos. Daí o delicioso susto que tomou conta da emissora quando, um mês depois da estréia de “A Praça é Nossa”, em maio do ano passado, o índice de audiência em São Paulo se encarapitou na marca dos 32 pontos. Mais do que isso, o novo programa, pela primeira vez, fazia a proeza de ultrapassar o seu maior rival no horário, o Globo repórter, deixando-o na poeira com 25 pontos.

Para a Globo, a dor de cabeça apenas começava. Nos últimos meses, de olho nos indicativos, a Globo tem multiplicado aflitas tentativas para neutralizar o adversário. Não conseguiu provocar-lhe arrepios com sua Sessão suspense. Sacou a bem-sucedida Armação Ilimitada, que acabou mostrando reduzido poder de fogo em matéria de audiência. No dia 9 de junho, finalmente, enquanto Tarcísio Meira e Glória Menezes suavam para escalar até os 26 pontos, em São Paulo, “A praça é nossa”, ela própria incrédula, espetava sua bandeira nos 44. Na última quinta-feira, as esperanças globais dependiam de Boi santo, caso especial de Dias Gomes pronto há meses e tirado às pressas da prateleira.

Nem mesmo os autores da façanha, ao que parece, estão conseguindo explicá-la. “A chave do sucesso? Se eu soubesse, estava no lugar do Boni lá na Globo”, faz charme o diretor artístico da TVS, Carlos Alberto de Nóbrega, redator final e apresentador do programa. Rubens Carvalho dos Santos, superintendente comercial da emissora, acha que será difícil manter o inverossímil patamar dos 40 pontos. “A Globo não vai se conformar”, acredita. “Uma hora ela acerta um produto e diminui o índice.” Ele até desconfia de que produto seria esse: “Eles poderiam trazer o Agildo de volta”, imagina. Mas o vice-presidente da TVS, Guilherme Stoliar, está seguro de que A praça vai ocupar por muito tempo a liderança. “Só se botarem uma Tela superquente, desafia”.

Charme à parte, Carlos Alberto de Nóbrega sabe perfeitamente por que o programa está dando certo. Filho do falecido humorista Manoel de Nóbrega, o criador do legendário A praça da alegria, que mareou época ao circular por diversas emissoras entre 1957 e meados dos anos 70, Carlos Alberto lembra que nada mais fez senão vestir o velho programa com uma linguagem nova e recheá-lo com mulheres bonitas. As piadas ingênuas da primeira “Praça”, é verdade, ganharam tonelagem às vezes pouco suportável. “É um programa que meu pai jamais faria”, ele admite. Mas que remédio? Os tempos são outros. “Não existe mais a criança que brinca de roda, que acredita em cegonha”, argumenta. “Todo garoto de hoje sabe o que é camisinha.”

Nem por isso Nóbrega acha que esteja corrompendo a infância, na qual localiza o grosso de seu publico. “Não faço humor sujo, faço duplo sentido”, ele distingue. “Uma sacanagem não explícita, subjetiva.” Assim, por exemplo, quando ”Dona Dadá”, personagem da atriz e modelo Alice de Carli, que vai aparecer com um pinto na mão, é literalmente com um filhote de galináceo entre os dedo que ela surge em cena. A gravata do pavoroso “Lindeza” (Ronny Cócegas) costuma empinar à visão de toda mulher bonita, mas Carlos Alberto de Nóbrega está seguro de que as crianças não põem maldade nesse priapismo têxtil: ”P ara elas, é só uma gravata que sobe”, ele inocenta. Não é o que pensa a Censura: no programa que vai ao ar na semana que vem, ela capou uma cena em que as gravatinhas de um bando de garotos entravam em espevitada ereção. A tesoura poupou as gravatinhas, mas não a de “Lindeza”, desoladoramente murcha.

A vulgaridade congênita da ”Praça” é atenuada por um acabamento cuidadoso – não tivesse Nóbrega vivido no Globo onze de seus 36 anos de carreira. ”Procurei fazer uma “Praça” bonita, sofisticada”, explica. Para ele, um dos erros da pouca freqüentada Praça Brasil, da Rede Bandeirantes, é tentar reproduzir a realidade, num país miserável. “A Globo, com suas maravilhosas “mentiras”, é que está certa”, afirma Nóbrega. Seguro disso, ele chegou à TVS com um maço de exigências para apresentar a Sílvio Santos, amigo de longa data, desafeto por uns tempos e novamente amigo. Pediu, por exemplo, gente bonita e iluminação especial para o seu programa. Com seu sotaque irreversivelmente global, acabou mudando os padrões de uma casa onde todos, do patrão ao contínuo, se julgavam fatalizados à breguice. “Quero que um dia as pessoas não tenham vergonha de trabalhar na TVS”, ambiciona.

O próprio Carlos Alberto chama atenção para a lufada de renovação que fez soprar sobre a emissora de Vila Guilherme. Trouxe a TV Globo para cá e mudei a mentalidade até mesmo do Sílvio”, gaba-se. “De repente todo mundo começou a querer para os seus programas as novidades que eu introduzi no meu”. Nóbrega se orgulha também de assinar o produto que mais dinheiro dá à TVS. E isso, sublinha, com recursos quase modestos. Com 40 artistas contratados, 15 a 20 figurantes e quatro redatores – além de Carlos Alberto, que dá forma final aos textos dos demais -, a “Praça” , que é gravada às segundas-feiras, não custa mais que 15 mil dólares semanais. “Maís barato que um seriado comum”, ele compara, garantindo que os filmes que a Globo comprou para emagrecer a audiência de Veja o Gordo às segundas-feiras custam, em média, 200 mil dólares cada.

A felicidade em Vila Guilherme seria completa se a “Praça” mordesse, no Rio, mais que os atuais 20 pontos – a metade, afinal, do que abocanha em São Paulo. Mas ninguém parece acabrunhado com essa relativa indiferença carioca – explicada, na casa, pelo fato de que “a Globo faz parte da paisagem do Rio”. “E até mais expressivo marear 20 pontos lá do que 40 aqui”, dá de ombros o superintendente comercial Rubens Carvalho. O vice-presidente Guilherme Stoliar, por sinal um carioca, como Sílvio, não tem pressa. Ele acha que a TVS está se transformando “na” emissora de São Paulo, assim como a Globo se converteu “na” emissora do Rio. “Um dia”, profetiza Stoliar, ”São Paulo vai se orgulhar de ter na TVS o seu porta-voz”.

One Response to RELEMBRE: “A Praça é Nossa” explode com 44 pontos em SP (1988)

  1. Tvsbt e a principal opição alem da globo;eu tambem compartilho dessa opinião

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