Record aposta em autor de novelas jovem


FAMOSIDADES

Gustavo Reiz, que foi o responsável pela adaptação da minissérie “Sansão e Dalila”, é o mais novo no time de autores da Record.

De acordo com o blog de Daniel Castro, ele será o autor da novela que substituirá “Rebelde”, no início de 2012.

A primeira novela de Reiz na emissora será uma adaptação de um texto da rede mexicana Televisa, que ainda não foi escolhido.

Além disso, o autor escolhido para substituir Cristianne Fridman, que escreve “Vidas em Jogo”, será Lauro César Muniz.

Essas informações são do site Famosidades

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2 Responses to Record aposta em autor de novelas jovem

  1. Ele arrasou em Sansão e Dalila, tenho certeza q vai mandar muito bem na novela. Espero q a Mel Lisboa, Renata Dominguez, Bianca Castanho, Leonardo Brício, Cacau Mello e Théo Becker estejam na trama! Fui…

  2. Pedro Laffay says:
    Sou escritor e poeta. Tenho vários contos que gostaria de algundia, ve-los adaptados para uma mini-série ou mesmo novela. PEDRO LAFFAI Título Original O COMEÇO DA VIDA Diagramação e Arte: Sob Orientação do Autor Desenho da Capa: Donato Fontalva Filho Revisão: Autor POL em 2010 ©Copyright 2006 -Anthemus Editora Anthemus 2006 Impresso no Brasil E-mail do autor: laffayett@hotmail.com Prefácio Fazer o prefácio de um livro é como tentar galgar uma montanha sem os apetrechos necessários. É uma tarefa sobremaneira difícil e arriscada. Demanda coragem, responsabilidade e porque não dizer, até mesmo certa ousadia. Contudo, quando se trata de falar de amigos, como, por exemplo, o Pedro Laffai, tudo fica mais fácil. Conheço a sua vida e seus conceitos sobre ela. Em determinadas ocasiões, tive o privilégio de ler os seus escritos em primeira mão e me deliciar com suas poesias, todas elas de alto padrão e sensibilidade. Recentemente, fui surpreendido pelo Anthemo (editora – Anthemus), que fez chegar até minhas mãos um manuscrito do Pedro. Pude ver que boa parte dele era recheado com as poesias de outrora, já minhas conhecidas. Folheei o material e, para a minha surpresa, em meio às poesias, encontrei um texto inédito, em prosa. Tratava-se de um pequeno causo, denominado pelo escritor “Recomeçar a Vida”, seu primeiro trabalho no gênero. “- É do Pedro Laffai! – disse-me o Anthemo. – São para publicar!” Abri o material e comecei a ler a história. Apesar de breve e permeada de personagens simples, a história flui com muita vida, ação e energia. Apresenta um desfecho digno de um bom roteirista de cinema. Sem dúvida, é uma obra consubstanciada por uma criatividade própria de alguém que, decididamente, nasceu para a arte da escrita. “Reflexões sobre o passado” é, com certeza, uma obra para ser lida por todos que apreciam uma boa leitura. Parabéns, Pedro Laffai. Fernando Bilah Editor O começo de uma vida se faz através do grito de dor, vindo de Maria Eulália. Estava Maria Eulália na lida que seu dia reservara, seguia sua labuta em devaneios. Pensava ela como seria bom morar num bairro de uma cidade qualquer, rodeada de gente por toda parte, ver crianças brincando nas calçadas e todo o barulho que elas fazem. Pensava também, “será que algum dia vou ter meus próprios filhos? Não vou pensar nisso agora, pensar pra que, né? “Só tenho 15 anos…” Anoitecera… Estando Maria Eulália em sua casa foi logo solicitada por seu pai nos cumprimentos das tarefas domésticas. Seu pai, Nhô Nogueira, militar aposentado por conta de um tiro levado na coluna e não podendo trabalhar mais, vivia a contar estórias. Quando pegava um não desgrudava. Era um grude, como um visgo que agarra e não solta a presa. Longe de seus ouvidos, todos o chamavam e brincavam: – Ô, Zé, vai lá na casa do visgo? – Vou não, deu trabaio pra desgrudar dele semana passada. E assim todo povoado satirizava Nhô Nogueira. Logo que Nhô Nogueira se aposentou, ficou à sua disposição uma quantia referente ao tempo de serviço que ele prestara. Ao pegar esse valor ele pensou: “O dinheiro é pouco, mas dá pra comprar um pequeno pedaço de terra no interior”. E foi assim que ele fez. Nessa época, Maria Eulália contava 11 anos. Órfã de mãe, não sabendo nada sobre afago materno, pois sua mãe morrera em decorrência do parto. Foram tempos bons, mesmo sem a presença da mãe, porém tinha o carinho e os cuidados da avó. Com o ventre respingado da água da pia na qual lavava a louça do jantar, escutou uma voz que vinha de longe dizendo-lhe: -Maria, Maria! – Foi até a porta a fim de saber quem a chamava, porém, não havia ninguém. Achou um tanto estranho, pois tinha certeza de ter ouvido o chamado. Perguntou ao seu pai que ouvia atento o rádio e dele uma partida qualquer de futebol. Ele deu de ombros, dizendo não ter escutado nada além do jogo. Voltando para a pia, teve uma sensação de calafrio que lhe arrepiara os pelos do braço. Benzeu-se dizendo algumas palavras sacras e continuou lavando a louça. No dia seguinte acordou cedo como de costume, fez o café, fritou alguns bolinhos e preparou a comida que iria levar para o trabalho. Estava na colheita de milho e não poderia deixá-lo de colher, pois os pássaros e os roedores já começavam a prejudicar o milharal. Seu pai Nhô Nogueira, impossibilitado de mexer com suas terras, contratava na época de plantio o Aparecido, que tinha um arado e um pequeno burro. Já sabendo que estava escalado para o serviço, ele nem pedia autorização, ia logo cortando a terra com seu burrinho birrento. Ele riscava a terra e Maria Eulália jogava a semente, assim formavam uma equipe perfeita, conveniente para Nhô Nogueira. Aparecido só lembrava de receber pelo seu trabalho, quando Nhô Nogueira cogitava entre o vilarejo que a colheita estava a venda. Por vezes, Aparecido trocava seus serviços por alguma bugiganga que Nhô Nogueira forçosamente lhe empurrava. Aparecido, homem feito, contava 30 anos, olhava Maria Eulália com olhos de afeto. Ele tinha experimentado um casamento frustrado no qual fora obrigado usar de violência, por conta de uma traição. Não se via envolvido com mais ninguém, também isso nem passava por sua cabeça. Maria Eulália com 15 anos apresentava beleza, porém uma beleza angelical, que só uma adolescente pode mostrar. Chegada a hora da colheita, era Maria Eulália mesmo que escalava a mão-de-obra, mão de obra essa que era composta por filhos de lavradores vizinhos, quase todos de sua idade. Ela via esse trabalho como uma diversão, sabia que tinha que ter responsabilidade mas, sempre dava um jeito para que a harmonia não se perdesse. Certo dia, Maria Eulália atrelou seu cavalo numa carroça, colocou seus pertences Junto com as ferramenta que iria utilizar e seguiu num dia frio por um caminho estreito até o milharal. No caminho, Maria Eulália ia encontrando seus companheiros de labuta, que pegavam carona naquele tipo de transporte. A distância do caminho acidentado era de cinco quilômetros, a contar da sede da propriedade. Maria Eulália indagava Feinho, um dos seus contratados: – Feinho, você aprontou ontem lá em casa, né? – Prontei nada! – afirmou Feinho. – Que foi? -Você ficou chamando meu nome e saiu correndo, né? -Eu não, cê tá louca! – respondeu Feinho. Ela acabou não dizendo mais nada, sabia que aquela conversa não ia chegar a lugar algum, preferiu ficar calada. O dia seguiu e seus pensamentos, também. Algumas vezes ela tivera a oportunidade de folhear revistas e se deparar com lugares fantásticos. Então, ela transferia seu espírito para esses lugares e o trabalho fluía magicamente sem ela perder a noção do que estava fazendo ali no milharal. Nhô Nogueira não dera opção de estudo a Maria Eulália. Por motivos do acidente ocorrido com ele, ficou um tanto egoísta. Com medo de ficar desamparado, impediu a formação escolar da filha. Longe do povoado, restou a ela cuidar da casa e dos afazeres das terras, sempre sobre a supervisão do pai. Maria Eulália olhou entre as folhas do pé de milho e acordou do transe, era um chamado de Feinho: – Maria, Maria… Ela logo percebeu que não era a voz dele que ouvira no dia anterior enquanto lavava a louça. – Fala, Feinho. – Sabe quando seu pai contou que atirou num monte de alemão? – Sim, já sei todas as histórias dele, por quê? – Nada, é que eu tava pensando… Aquele alemão que tava no barranco fazendo cocô e soltou aquele pum , foi nessa hora que seu pai e os outros deram os tiros…? Não entendi direito! Foi o pum do alemão que salvou seu pai e os outros soldados? – Ah, sei lá, Feinho, vai perguntar pra ele. Deixa eu terminar essa fileira de milho, vai. Feinho, por sua vez: – Eu não, se for lá vou vortá com outras dúvidas e o ouvido zunindo de conversa. Feinho tinha 14 anos e era muito atrapalhado, tanto que o apelido vinha dessa falta de atenção. Certa vez sua mãe preparava-se para passar o café, quando ele veio correndo, tropeçou na cadeira, agarrou na blusa da mãe que, ao perder o equilíbrio, derramou toda aquela água quente em sua cabeça. Feinho ficou um bocado de tempo no hospital da capital até melhorar. Depois de guardar o milho colhido no paiol, Maria Eulália atrelou novamente o cavalo à carroça e seguiu em direção à sua casa. Já avistava a casa quando repentinamente, num lance brusco, o cavalo escorregou e ela tomada de surpresa não teve como controlar a carroça, que veio a despencar morro abaixo. Pobre menina! Ficou ali, caída no chão, desfalecida. A noite chegou e a nuvem negra do desespero se apoderou de Maria Eulália, que Começava voltar do desmaio. Ela olhou ao redor e viu que estava sob a carroça, presa pelos aparatos que a constituía. O cavalo agonizava deitado logo à frente. Ela tentou sair dali quando então percebeu não ter movimentos nas pernas. Uma lágrima de dor perfilou em seu rosto e, vencida pela fatalidade, desfaleceu novamente. Maria Eulália acordou no hospital em meio a parafernálias cirúrgicas. Estava calma devido a sedativos. Olhou para um senhor todo de branco que estava ao seu lado e não conseguindo falar, balbuciou alguma coisa, ao que o homem, inclinando-se, falou-lhe, passando a mão sobre sua cabeça: – Estamos cuidando de você, viu? Logo estará em casa com seu pai. O homem de branco era Doutor Alpino, médico conceituado da capital, que estava a pouco tempo prestando serviços no hospital do povoado. Ele chamou uma enfermeira e perguntou se a chapa de Raio X já estava pronta. A enfermeira por sua vez, com um envelope amarelo nas mãos, bateu-lhe nas costas e disse: – Está sim, doutor! Está aqui em minha mão! O médico apanhou o envelope e foi para sua sala e lá demorou alguns minutos. Nesse meio tempo, com a máscara de oxigênio no rosto, Maria Eulália pensava na possibilidade de ficar como seu pai. Como cuidaria dele? Quem iria cuidar das terras? Viver da miséria que seu pai recebia da aposentadoria não ia dar para os dois viverem. Seu pensamento buscou o rosto de sua mãe, mas ela não conseguia fixar uma imagem e por fim adormeceu. Logo pela manhã, ela acordou com seu pai ao lado, afagando-lhe o rosto. Como sua fisionomia estava carregada, ela logo percebeu o pior da situação e perguntou, resignada: – Vou ficar como o senhor, né pai? Numa cadeira de rodas… Sem responder, Nhô Nogueira movimentou sua própria cadeira de rodas e, chorando, abandonou o quarto. Maria Eulália, por sua vez, permaneceu forte, engolindo o choro. Era aniversário de Maria Eulália, o pessoal da redondeza vinha com iguarias e lhe cobria de presentes. Já fazia três meses da alta do hospital e ela ainda se adaptava à nova vida. Parada num canto observava a festa e as estripulias do pessoal. De onde estava Maria Eulália via um espelho e nele o reflexo de seu corpo sentado na cadeira de rodas. Via que ele já não era mais tão franzino como antes, estava mudando e mostrava um corpo de mulher. Com lágrimas nos olhos lembrou-se que desejava ter filhos e construir uma família, Joana se aproximou para lhe oferecer um pedaço de bolo, foi quando conteve o choro. Nhô Nogueira contava com a ajuda esporádica de Joana logo após o acidente ocorrido com sua filha. A moça chegava pela manhã, fazia o almoço, ajudava no que podia e levava a roupa para lavar em casa. Já as tarefas da roça ficaram ao encargo de Aparecido e seu burro birrento. Ele combinara com Nhô Nogueira uma pequena porcentagem sobre a colheita. Aparecido havia se casado novamente, agora com uma mulher bem mais velha, Dona Cida, uma senhora com traços fortes e com alguns quilos a mais. Era uma pessoa muito doce e generosa. Quando morava na capital, um belo dia, ao sair na varanda de sua casa, eis que se deparou com uma cesta de vime e um bilhete dizendo: – “Não posso cuidar, espero que a senhora possa dar uma vida melhor para ele”. Espantada, abriu a cesta e lá estava um garotinho recém-nascido, nu, com apenas um pedaço de saco de estopa cobrindo seu corpinho. Ela não conteve a emoção, pegou o garoto e depois de alimentá-lo e confortá-lo em uma manta, logo foi tomar as precauções da adoção. Tinha pressa, pois estava de mudança marcada para o interior, onde receberia uma herança proveniente de seus pais. Pensou: “É uma benção de Deus. Agora que estou de partida e que já não tinha esperança de ter um filho, Deus me abençoa com essa criança”. Dona Cida nunca se casara por conta de cuidar dos irmãos mais novos. Foi ficando para trás e quando viu o tempo já lhe havia roubado a juventude. Os dias foram longos e as noites foram eternas para Maria Eulália. Já com quase dezoito anos, ela se mostrava uma moça muito atraente. Feinho, que já era um rapaz forte e bonito, nem de longe lembrava aquele menino com cicatrizes pelo rosto. Com o tempo elas foram diminuindo e, assim, deixando uma beleza mais acentuada no tal Feinho. Nos fins de semana, geralmente tinha festa no povoado. Feinho sempre ia até a casa de Maria Eulália e dizia-lhe, enquanto rodopiava a sua cadeira de rodas: – Hoje você vai dançar comigo a noite toda. Ela, por sua vez, retrucava: – Pára com isso Feinho, você sabe que não posso. Feinho fazia de rogado, pegava a cadeira e girava, girava até arrancar um sorriso de Maria Eulália. A colheita do ano anterior tinha rendido algum dinheiro extra para Nhô Nogueira. Aparecido tinha aplicado todo seu conhecimento nas terras e, com isso, triplicara a produção. Para que o serviço evoluísse mais, ele foi obrigado a contratar alguns serviçais. Um dia, estando no povoado, viu chegar de carroça algumas pessoas estranhas. Vendo as condições precárias daquele pessoal, resolveu oferecer-lhes emprego. Arrumou alojamento e mantimentos para que os trabalhadores se estabelecessem perto da roça. Zecão, com seu jeito amargo de ser, aparentava ser o líder do grupo. Aparecido achou isso conveniente, já que havia respeito por alguém entre o pessoal. Aparecido, com essa força extra, pretendia dividir várias culturas dentro das terras, e assim o fez… O tempo foi passando e, para felicidade de Nhô Nogueira, as coisas progrediram. Com o progresso, Aparecido também engordou sua comissão, e com isso trocou todo seu implemento agrícola por equipamentos novos. Até o burrinho birrento foi substituído por um trator. Com essa mudança em sua vida, os comentários de Nhô Nogueira também mudaram. Já não contava mais as suas aventuras de guerra. Agora só se referia ao dinheiro que estava ganhando e sobre a caminhonete hidramática que mandara vir da capital. Diante da opulência demonstrada pelos patrões, os empregados, querendo um salário melhor, começaram a se revoltar. Pediram a Zecão para interceder por eles. Não conformado com a situação, Zecão chegara a falar grosso com Aparecido, reclamando do pequeno salário que ele e seus homens recebiam. Aparecido sempre lhe pedia calma e lhe dizia que as coisas iriam melhorar para todos, era só esperar um pouco mais. Era início de verão, a tarde caía e via-se ao longo do horizonte uma cor avermelhada. Maria Eulália, na varanda, mirava o olhar nessa beleza natural. Nhô Nogueira estava atrás da casa tecendo um jacá que Aparecido lhe solicitara, quando ouviu uma voz aflita chamar pelo seu nome: , – Nhô Nogueira, Nhô Nogueira! Era Joana. Ela vinha, afobada, pelo caminho. Quando chegou à porta da cozinha, Nhô Nogueira perguntou-lhe: – Que foi Joana, que sangria desatada é essa? Ela, sem poder falar, ainda ofegante, tomou um gole de água na bica e chorando muito, contou: – Aparecido pediu que eu fosse na casa dele ajudar Dona Cida a preparar algumas pamonhas, dizendo que só eu sabia fazer do jeito que ele gosta, e, e… Quando cheguei lá, Dona Cida estava deitada no chão, toda encharcada de sangue, ela está morta! Nisso, Maria Eulália, ouvindo o choro, entrou pela sala que dava acesso à cozinha e veio se inteirar daquele desespero de Joana. – Nossa, Mãe! -disse Maria Eulália. – Temos que correr para avisar o Aparecido, que deve estar no paiol com seu filho. Aparecido, ao casar com Dona Cida, também adotara o pequeno Thiago como filho e era o maior xodó com o garoto, levando-o sempre ao trabalho, quando o serviço era apenas de supervisão e assim poder ficar de olho nos passos do menino. Maria Eulália mandou Joana atrelar o cavalo em uma carroça adequada a ela e logo em seguida pediu ajuda para subir naquele transporte improvisado. Despediu-se de seu pai que tentou ainda impedi-la, mas, diante do acontecido, não ouviu seus apelos. Aceitou apenas a companhia de Joana para ajudá-la caso ela viesse precisar durante o caminho. Seguiu pensando no que poderia ter acontecido: -“Será que Dona Cida se matou? Será que Aparecido fez alguma loucura e eu estou indo de boa-fé avisá-lo? Será que ele pode estar escondido no paiol? Ele já se mostrou violento no outro casamento, mas motivo ele tinha, né, a sua ex mulher não é flor que se cheira”. E continuou mesmo apreensiva. Ao passarem por um desvio, foram abordadas por três peões. Um deles ela conheceu: era o Zecão, que segurou as rédeas do cavalo e pediu para que Joana descesse. Ela disse que não. Então ele a arrancou da carroça pelos cabelos. Nesse momento Maria Eulália já tinha percebido o que estava acontecendo. Seus pensamentos escureciam seus olhos, foi quando disse: – Deixem a Joana em paz, o que vocês querem? Zecão respondeu, passando a mão grossa no rosto de Maria Eulália. – Com você, nada, minha flor, mas com o safado do Cido e com o seu pai, temos muito que acertar. Nessa altura, Joana já havia sido levada por um deles. Maria Eulália, sem saber que reação poderia tomar , e o que poderia vir acontecer, tentou tocar o cavalo numa fuga desesperada. Mas Zecão estava atento. Retomou as rédeas e arrancou a pobre moça do assento, dando-lhe um forte tapa no rosto. Maria Eulália caiu e tentou se arrastar em busca de socorro. Zecão pegou-a pelas pernas, puxou-a e depois se deitou ao seu lado. Tentou beijá-la. Ela gritava e tentava escapar do seu agressor. Contudo, Zecão era muito forte. Foi para cima dela e, arrancando sua peça íntima por debaixo do vestido, violentou-a. Uma sensação de ódio, misturada com impotência, fez com que ela serrasse os dente e veio um choro desesperador. Ele continuou com aquele ato tresloucado e, ao terminar, chamou o seu companheiro para compartilhar com ele daquele ato infame. Foram momentos de muita dor para Maria Eulália, tanto que ela já não tinha mais forças para gritar. Apenas se submetia impassível ao que o destino lhe reservara. O mundo e tudo aquilo que ela pensava da vida desabara à sua frente. Zecão, como estivesse tomado por uma loucura de ódio, bateu várias vezes em seu rosto: – Ninguém me engana, viu!! Quando tentá me enganá novamente, vai sabê do que sou capaz! – E deu-lhe uma cusparada. Depois partiu em direção a sede da fazenda, chamando por seu comparsa: – Vem logo, ô praga, vamô terminá esse serviço! Maria Eulália juntou forças e se arrastou tentando pegar a carroça que estava alguns metros dali. Mas ela não agüentou e desmaiou. Nhô Nogueira era um homem experimentado, com experiência adquirida com a guerra e tudo mais. Ao ser informado do ocorrido com Dona Cida, já imaginara o pior. Por isso tentara impedir a filha de ir ao encontro de Aparecido. Quando as duas saíram com a carroça, ele entrou na casa para pegar uma espingarda e um revólver, que guardava num baú. Depois, procurou ficar num ponto estratégico e permaneceu ali, à espera. Mais tarde, quando escutou a batida forte vinda da porteira, logo viu pelo som que não era Maria Eulália que chegava. Ficou atento e se preparou para o pior. Estando ali, num canto estratégico entre a porta da sala e da cozinha, viu o vulto entre as cortinas. Esperou que ele se aproximasse da porta, onde pudesse vê-lo melhor para não cometer nenhum erro. Quando a porta se abriu e ele teve certeza de quem era, atirou sem receio. O tiro pegou o comparsa de Zecão bem no peito. O homem caiu e tentou se levantar. Mas Nhô Nogueira atirou novamente, agora com o revólver, acertando-o bem na cabeça. Zecão, por sua vez, que estava do outro lado da casa, escutou os disparos. Já imaginando o pior, tratou logo de fugir, pois não trazia consigo armas de fogo. Foi Aparecido quem encontrou Maria Eulália. Ela sangrava e tinha ferimentos pelo rosto. Carregou-a em seus braços e tentou confortá-la, quando, então, ela lhe disse com a voz fraca: – Sua mulher está morta. Aparecido fixou o olhar em Maria Eulália e começou a chorar. Como seu filho vinha pulando logo atrás, escondeu as lágrimas para que ele não as percebesse. Disse baixinho para Maria Eulália: -A culpa de tudo isso é minha. E seguiu para casa de Nhô Nogueira. Chegando próximo da casa viram Nhô Nogueira, que esperava na varanda com armas em punho. O velho, ao ver a filha nos braços de Aparecido, foi logo perguntando: – O que aconteceu com a minha filha? Diga-me, o que aconteceu? Aparecido aproximou-se e colocou Maria Eulália deitada na rede da varanda. – Eles maltrataram sua filha, mataram minha esposa. Vou me vingar! Nhô Nogueira, com os olhos cheios d’água, respondeu: – Um deles eu peguei. Está lá na porta da sala. Aparecido entrou, olhou o cadáver e deu-lhe um chute. Pediu para Nhô Nogueira que ficasse com o seu garoto. Pegou o corpo da sala e levantou no ombro: – Vou pedir para o Dr. Alpino vir aqui, para ver Maria. -E seguiu em direção ao povoado. Ao lado da filha na rede, Nhô Nogueira sofria ao ver seu estado e pediu para Thiago pegar um pouco de água. Chegando ao povoado, Aparecido foi ao posto policial e chamou o Cabo Geraldo, que tirava um cochilo. Jogou o cadáver na porta e explicou o ocorrido, dizendo com a voz abafada, que sua mulher estava morta dentro de casa e que um dos autores do crime era esse defunto que ali estava. Contou também sobre Maria Eulália e disse que ia ao encalço de Zecão e de seus comparsas. Cabo Geraldo, todo nervoso, disse que iria pedir reforço pelo rádio, mas que só chegaria no dia seguinte, pois viria da capital. Aparecido saiu sem dizer uma palavra e seguiu em direção ao posto médico, e de lá não se viu mais ele no povoado. Joana apareceu na casa de Maria Eulália. Estava muito machucada, com vários hematomas pelo rosto. Contou que lutara com o homem que a levou para uma árvore. E quando ele foi pegar a acorda para amarrá-la, ela conseguiu acertar uma paulada, em sua cabeça e saiu correndo em direção à mata, onde ficara até o momento. Vendo o estado de Maria Eulália ela não conteve o choro e abraçou a amiga fortemente. Aparecido se armou e saiu à procura de Zecão. Ele seguiu a trilha do milharal. Sabia que não poderiam estar longe do acampamento. Os poucos pertences que tinham, ainda estavam nos casebres. Se rodeasse o povoado pelas pastagens, seria mais provável encontrá-los. Fez isso e seguiu em círculo pelas terras vizinhas. Ele era nascido na região, e por isso conhecia cada palmo daquele lugar. A noite começou cair. Ele pegou um atalho que o levaria até uma cachoeira que abastecia o povoado com suas águas. Seguiu por uma trilha marcada pelo gado que ali passava e resolveu chegar na cachoeira pelo lado de cima, ou seja , exatamente onde a água despencava. Ele queria ter uma visão panorâmica do local. Quando se aproximou de uma pedra na margem, onde se iniciava a queda d’água, sentiu um forte golpe na nuca e desfaleceu. Zecão o atingira com um pedaço de pau. O comparsa de Zecão foi logo querendo dar outra paulada, quando este disse: – Parado, não vamô matá o mardito! Agora não. Amarra ele e vamô levá até a casa do Nhô Nogueira e pegá todo dinheiro e tudo que tivé de valor. O Comparsa falou: – É na casa desse fio da puta, só tinha porcaria, a Joana falo que Nogueira esconde dinheiro no assoáio da casa! Zecão completou: – Vamo lá pega então , depois matamo todo mundo, inté a vagabunda da Joana. E assim seguiram novamente para a casa de Nhô Nogueira, dessa vez usando o pobre Aparecido como escudo. Com a ameaça de matar Aparecido, Zecão desarmou Nhô Nogueira. Logo em seguida mandou seu comparsa amarrar a todos, exceto o menino Thiago e Joana, que já se mostrava ser parceira do plano. Sendo assim, uma pessoa como Joana, que passava as manhãs dentro da casa de Nhô Nogueira inteirava-se até do dinheiro que ele escondia. E foi exatamente quando Joana, já bem envolvida por Zecão. Obcecada pelo jeito grosseiro e mandão do amante. Sabendo ela que poderia ganhar mais afeição ao relatar todo progresso proveniente do falatório que ouvia, até mesmo sobre o dinheiro escondido, que ela própria julgava ser dos lucros que provinha do esforço dos serviçais comandado por Zecão, não teve dúvidas de relatar tudo que acontecia naquela casa quando ele lhe pediu informações. Aparecido recobrou os sentidos e a tortura se fez presente. Ao ver aquilo, Nhô Nogueira disse: – É dinheiro que vocês querem, não vão encontrar, pois está tudo investido nas terras! Joana o interpelou: – Seu veio incapaz, você me disse outro dia ter muito dinheiro guardado dentro dessa casa. Agora vai ter que mostrar. Maria Eulália, não demonstrava sentimentos diante daquilo que estava vivendo, pois sua mente confundia a realidade com a ficção de um livro qualquer ou até mesmo com as histórias contadas por seu pai num tempo remoto. Porém, a realidade ali, naquele momento, era bem diferente e cruel. Zecão esbravejou e disse: – Vamô pará com essa putaria! – E jogando o menino Tiago em direção a Joana, completou: – pega esse pirráio e procura por toda a casa, revira tudo, inté as tábua do assoáio. E passando a mão grossa no rosto de Maria Eulália, sorriu maliciosamente: – Enquanto ocê procura com o garoto, nóis vamô fazê uma merenda. Joana saiu com o menino. E depois de muito procurar, ela se perdeu na beleza de um baú feito de coro de boi, no qual havia muitos pertences da família. Entre muitas coisas, encontrou uma relíquias. Seus olhos se encheram de felicidade ao ver um lindo colar, juntado por perolas, estreitava-se por um invólucro, donde aberto mostrava dizeres de amor, sentimentos que Nhô Nogueira expressava a sua esposa amada . Tiago, por sua vez, aproveitou-se do deslumbre de Joana, e atentando-se para um outro baú, onde viu uma pistola. Joana, voltando para contar a boa nova a Zecão, não percebeu as ações de Tiago. Adentrou a sala e quando viu apenas Nhô Nogueira e o Aparecido imobilizado sem reação, ela entendeu o que estava acontecendo. Com uma expressão fortemente amarga, foi até um dos quartos e deparou-se com Zecão e o seu comparsa violentando novamente a pobre Maria Eulália. Thiago, aproveitando-se da situação, encostou a arma nas costas de Joana e disse-lhe: – Sua traidora, vou te matar! Nesse momento, sem ter o que perder, Joana se virou e conseguiu tomar a arma de Tiago, dando-lhe um empurrão. Ao ver a cena, Zecão gritou: – Muito bem Joana, mata ele! Atira nesse garoto fio da puta! Depois dá a arma aqui que eu mato o resto! Joana mirou na cabeça do moleque, enquanto na sua retaguarda Zecão e o comparsa se vestiam. Joana deu uma virada brusca e disparou a arma em direção a Zecão, acertando-lhe no pescoço. O comparsa, numa reação sobre-humana, tentou pegar a espingarda que descansava sobre um criado mudo, porem em vão, levou um tiro no peito, caindo sobre um travesseiro branco, tingindo-o com o seu sangue. Zecão ainda tentou balbuciar algo para Joana antes que ela desfechasse outro tiro em sua cabeça. Joana olhou nos olhos de Maria Eulália e não conseguindo dizer nada, saiu da casa pela porta dos fundos em movimentos lentos. Parecia perdida, sem saber qual direção a tomar. Dr. Alpino chegou tardiamente à casa de Nhô Nogueira. Ao se deparar com toda aquela tragédia, imediatamente tentou medicar Maria Eulália. Colocando-a em seu carro foi tomar as providências junto ao Cabo Geraldo, que por sua vez já contava com o reforço que pedira na capital. – Alguns meses se passaram. De Joana soube-se apenas que ela, atormentada pelas imagens de toda aquela tragédia, se suicidara ateando fogo ao próprio corpo. Quanto a Maria Eulália, apesar de não transparecer, aquele drama ainda lhe afligia. Aparecido se mostrara sempre disponível para ajudar Nhô Nogueira e sua filha. Agora Maria Eulália via Aparecido com outros olhos. Sentia despertar uma paixão por ele, sem saber que ele já há muito tempo guardava um grande amor por ela…” – Ah! não! Feinho, você inventa muita conversa, já contou esse caso dessa tal Maria Eulália umas dez vezes e sempre de maneira diferente – Interrompeu, Tonho, um dos homens. -Vou continuar roçando, antes que toda essa conversa fiada me embole o estomo! Enquanto o pessoal da lida se dispersava após o almoço, com a sensação de Feinho ter soltado um baita pum na roda amigável de uma conversa, tal era a situação indigesta que ele havia causado com suas história maluca. Restou a Feinho soltar uma gargalhada sarcástica e gritar ao pessoal : – Mas invento um bom causo, num é pessoar ! ? F I M Epitáfio da cobiça Título original: Epitáfio da Cobiça Diagramação: Editora Arte da Capa: Alonso Pereira Feliciano (sob orientação do autor) Copyright Pedro Laffai – 2007 laffayett@hotmail.com Impresso no Brasil APRESENTAÇÃO Epitáfio da Cobiça: uma introdução Podemos perceber que o Pedro procurou sistematizar certas regras ao escrever o seu Epitáfio da Cobiça. Inicialmente, nos deparamos com um caso aparentemente inexplicável: os mortos que são retirados de suas tumbas. Depois, a partir de indícios superficiais, surge a personagem que será culpada injustamente: Jainir, o coveiro. A seguir, entra em cena o Delegado que, no presente caso, chama-se Seu Formiga, que observa e raciocina sobre o que está acontecendo. Entremeando, surgem relatos curtos sobre outras personagens. E, assim, vamos caminhando para o fim, na busca da solução do caso. Quando pensamos que a mesma vai ser coerente nos deparamos com o imprevisto. E lá está o Pedro nos oferecendo mais uma pitada de seu talento a tornar o mistério quase risível. E de repente, percebemos que a intenção real do autor não é seguir as normas, ou seja, utilizar o método hipotético-dedutivo, partindo dos fatos, chegando a uma teoria provisória que lhe possibilita voltar aos fatos para verificar se tudo foi explicado. Ele brinca com nossa imaginação, e nos faz cúmplices de suas marotices literárias. Aguça a nossa curiosidade, de forma a prender nossa atenção para, no final de seu relato, dar um desfecho inusitado para o destino de seus personagens. Admiro o Pedro Laffai, sua prosa, sua poesia e, principalmente, a forma como procura ver a vida. Disse antes e reitero agora: o Pedro não escreve aqui apenas um texto literário, tendo o mistério como estruturador de sua narrativa. Na verdade, ele deixa em aberto um roteiro cinematográfico para quem quiser fazer um bom filme. Anthemo Roberto Feliciano – Editor Doutor Guarapi estava suando frio, com seu boticão a causar horror em Arnaldinho: – Que diabo Arnaldinho. Eta Porra! Que dente duro de arrancar! – exclamava o Doutor. Arnaldinho por sua vez, arregalava os olhos esbugalhando-os naquela ferramenta sinistra e contava os minutos rezando para tudo que era santo que lhe vinha à cabeça. Por fim, o Doutor Guarapi assoviou uma canção nordestina e exibiu o troféu. Com uma expressão zombeteira ainda disse: – Felá duma puta, falei que te arrancava! – disse o doutor. Nisso, Arnaldinho despejava odontemorragicamente seu sangue em tudo que mirava sua boca. Doutor Guarapi, com firmeza e senhor de si, completou: – Esquenta não, Arnaldinho! Nada que um bom bochecho com água de batata não resolva. Gospe ai pra eu colocar um algodão e corre fazer o bochecho. E aqui vai uma rama de batata pra você não perder tempo. – E assim deu alguns tapinhas nas costas curvada de Arnaldinho que, reunindo forças, saiu em disparada com a rama na mão. – Corre Arnaldinho pra fazer o bochecho. – repetiu o Dr. Guarapi, indagando baixinho: – Cada cabra mole que se encontra aqui. Doutor Guarapi era um nordestino que aparecera na cidade alguns anos atrás. Quando chegou, empunhava na mão direita uma mala grande e na mão esquerda uma pequena valise, que levantava rumores entre os moradores da pequena cidade do interior. Alguns moradores arriscavam palpites, dizendo: -Ele é “o homem do crime da mala”… – referindo-se a um caso, recém acontecido na capital. Porém, com o tempo, o povo foi se acostumando ao jeito aloucado do Dr. Guarapi. Andava uma boataria pela cidade de que os corpos do cemitério estavam sendo bolinados, após o enterro, mais precisamente na madrugada do féretro. Quando falecia alguém na cidade, Jainir, o coveiro, era logo avisado pra fazer os preparos da cova. Como era de se esperar, vinha o cortejo, choro, flores e, por fim, o vigário, que se chamava Juca. Terminado todo o aparato do enterro, Jainir lavava as ferramentas utilizadas, guardava-as num depósito e trancava o portão do cemitério. Depois, ao deixar o local, riscava o rosto com o sinal da cruz. No dia seguinte ao enterro, Jainir era intimado pelo delegado, Seu Formiga, a dar explicações sobre o portão do cemitério estar aberto, o defunto estar nu sobre o tumulo e também falar sobre aqueles rabiscos na lápide, confundindo os dizeres do epitáfio que tão zelosamente a família cunhara. Jainir repetia sempre o mesmo discurso e isso já estava irritando-o, irritado também ficava Seu Formiga, devido aos constantes casos que surgira nos dois últimos anos. O delegado Formiga tinha fama de ser durão. Veio da capital, onde tinha muita experiência na profissão. O apelido de formiga surgiu num fato que acontecera alguns anos atrás, ao tentar arrancar uma confissão de um rapaz acusado de roubar alguns trocados numa pastelaria. Formiga já estava exausto e nada do rapaz assinar a bendita confissão. Dera tapas na cabeça do rapaz, o colocara no “pau de arara”, aplicara tortura chinesa, tcheca, soviética e até mesmo turca, e nada… Foi ai, então, que ao sentar-se na cadeira e mirar seus olhos para o chão, tentando lembrar-se de alguma técnica que poderia ter lhe escapado ou ter passado despercebido, eis que viu uma saúva enorme passar entre seus pés. Pensou… “hummm”. E foi logo dando ordem ao carcereiro: -Tira a calça do safado, agora ele vai falar! Jainir parte mais uma vez para delegacia e no caminho vai rememorando as perguntas que o delegado irá lhe fazer, pois já havia decorado a cartilha de interrogação do delegado. Porém, dessa vez, Jainir estava enganado quanto às intenções do delegado. Acontece que o Delegado Formiga tinha um plano: Colocaria Jainir como colaborador, queria ele plantado na cena do próximo crime, assim apanharia o meliante com a cooperação do coveiro Passado algum tempo, Padre Juca foi chamado para dar uma extrema-unção. Ele devia seguir para uma fazenda que ficava alguns quilômetros daquele povoado. Tratava-se de um pedido formal, vindo de uma família tradicional daquela região. Chegando lá, percebeu que tinha algo estranho naquele local, pois o pessoal da lida, não apresentava sinal de tristeza, executavam suas tarefas no pátio da fazenda com toda normalidade do mundo, alguns até cantarolavam uma canção. Mesmo assim continuou a caminhar até uma pequena orada que, enfeitada, destacava-se no pátio da sede da fazenda. Padre Juca adentrou aquele recinto, olhou para um lado e depois para o outro e nada… Então resolveu sair, foi quando ouviu choramingo que vinha de trás do muro daquela construção. Deu alguns passos e deparou com o dono da fazenda e seu capaz, estavam aos prantos. Nisso olhou para o lado direito, tentando entender o sofrimento dos dois que desmanchavam-se em lagrimas. Foi quando viu um burro deitado sobre um lençol branco, que agonizava em seu último suspiro de vida. O padre indignado perguntou: -Perai… Que é isso? Que tá acontecendo aqui… Que brincadeira querem aprontar comigo ?! Foi quando o dono da fazenda em soluços reuniu forças e respondeu: -É nosso burrinho Valdo, ele está morrendo Padre! Padre Juca, não acreditava naquilo que via. Inconformado foi logo soltando o verbo: -Vocês pensam que não tenho nada que fazer na vida… Não querem que eu de extrema-unção para um bicho né? Estão zombando da minha cara não é? O capataz, respondeu choroso: – Claro que não estamos zombando Padre, só queremos sua benção para o Valdo – sabe Padre, ele é como um filho para o patrão, né patrão? O patrão consentiu balançando a cabeça afirmativamente, e completou: – É o sinhozinho dessa fazenda, ele é meu garoto, buahh No mesmo momento Padre Juca deu meia volta e se pôs a caminhar em direção à porteira que levava até a estrada. E assim foi resmungando: – Bando de doido, onde já se viu… Tirar-me da paróquia pra isso. Vou abandonar a batina. É isso mesmo Senhor…vou sim. E continuou a caminhar e a resmungar. Chegando próximo à cidade, padre Juca resolveu pegar outra entrada, na qual passava ao lado do cemitério. Foi quando notou que o portão estava aberto. Pensou, repensou e decidiu entrar pra ver o que estava acontecendo, pois sabia que Jainir não poderia estar ali, não havia nenhum óbito registrado na cidade, a não ser o fiasco do burro que lhe tomara o tempo. Pode ser que na sua ausência, tenha acontecido algo e, ninguém sabendo onde encontrar o padre, resolveram enterrar o cadáver sem o encaminhamento do vigário. E assim o fez. Entrou no cemitério e foi em busca de alguém ou de um cortejo que seja. Há esta hora já estava escurecendo e um vento frio soprava as folhas caídas no chão, caracterizando assim um ar de mistério. Foi quando padre Juca, de longe, observou um movimento em um túmulo, e da cova aberta escutava murmúrios vindo dela. O Padre virou-se apressadamente e buscou a saída sem ao menos olhar para trás. Passado alguns dias do acontecido, Padre Juca não se conformava da própria covardia em não ter ido verificar o que estava acontecendo e se perguntava: – Porque não bati meus olhos dentro da cova? Porque não tomei uma atitude…? Pois não tenho autoridade aqui na cidade também? É melhor esquecer essa minha autoridade e continuar a missa. E assim o fez. Por vezes misturava o fato do cemitério com algum trecho da bíblia, olhava assustado para os fiéis, eles mais ainda a fixarem o reverendo, que logo corrigia com um amém e tudo acabava bem. Certo dia, Jainir fora acordado as pressas… Arnaldinho batia incessante-mente em sua porta. Quando atendeu meio trêmulo por não despertar direito, ainda confuso, perguntou: -Que foi que aconteceu, ohh! Caramba, quer me matar de susto é? Arnaldinho logo se prontificou: -O leiteiro está morto… Você tem que ir ao cemitério preparar a cova. Jainir ainda atônito pelo súbito despertar, disse: -Cê tá é louco, Arnaldinho… Vai buscar o pedaço de miolo que ficou lá com o Dr. Guarapi, vai… Arnaldinho, com o fono ainda fanho, justamente por não cicatrizar a malfadada cirurgia, disse: -Estou falando a verdade, vamos! E assim, foi contando o fato para Jainir, enquanto ele se vestia, dizendo: – Ele foi lançado fora da carroça… O cavalo saiu em disparada arrastando o coitado atado ás rédeas, por várias quadras. Diante de tamanho argumento, só restou a Jainir preparar-se para o trabalho que lhe esperava. Chegando ao cemitério, Jainir foi logo abrindo o grande cadeado que entrelaçava o ferrolho. Já preparado para colocar o pé na terra do seu cavouco-labutante, Seu Formiga tocou-lhe o ombro e disse: -Perai, Jainir, temos um acordo lembra? Jainir assombrado virou-se e deu um grito: – Uiiiiii… Sai de retro satanás… O nome de Jesus tem poder… Seu Formiga logo o acalma dizendo: -Calma Jainir, sou eu, viu… O Formiga. Estando mais calmo e sabendo que o dia já começara com freqüentes surpresas, Jainir escutou com atenção os planos que o Doutor Delegado lhe ordenava para aquela noite. Ouvia com atenção, balançando a cabeça afirmativamente, para demonstrar ao Formiga que podia contar com ele, não falharia ao cumprimento do trato combi- nado. Chegada a hora do enterro, estavam presentes toda a família e uma pequena parte dos fregueses do leiteiro, tendo em vista que a parte maior dos consumidores de leite fornecida pelo defunto, estavam num festejo danado, comemorando a morte daquele que a anos roubara-lhes o paladar e todo o cálcio que seus filhos necessitavam para formação dos ossos. Alguns com dor aqui, outro ali, manquitolando, porém festejando a morte do danado do leiteiro. Havia muitas reclamações, diziam haver mistura naquele leite. Alguns afirmavam até, que na torneira da praça sempre era encontrado resíduos do leite. Tal era ganância do leiteiro que, quando buscava alquimicamente fazer a mistura deixava os vestígios na madrugada. Porém, o fato é que o tal leiteiro estava morto. Respeitosamente, a família lhe atribuía os últimos e amargos votos. Mal sabiam o que estava reservado para o pobre leiteiro, naquela noite. A família, já em casa, recordava os momentos e atos do membro querido e sucumbido. Nesse momento, Jainir se colocava conforme o combinado seguiu a risca tudo daquele acordo que selara com o delegado. Deixara o cemitério, conforme fazia normalmente. Padre Juca fechara o cemitério, tudo nos conformes, tudo estava normal para uma cerimonia triste como aquela . A noite era de lua cheia, situação essa que não era aquela que Jainir normalmente Idealizava, logo após a qualquer enterro, ele ia para casa, tomava um belo banho, umas doses , bolinava a companheira, recebia dela um “pára com isso, sai pra lá” e ia dormir. Seu pensamento correu envolto a fumaça do cigarro que dispersou após a baforada… De certa forma tranquilizou sua mente, encostado numa lápide a esperar sabe-se lá o que. Estava apenas munido de um farolete, pois fora combinado no caso de ver alguma coisa, sinalizar para que Seu Formiga tomasse ciência e agisse no momento preciso. Já passava das três horas da manhã, quando Jainir foi despertado por barulhos quebradiços. Notou naquele momento que se tratava de passos sobre gravetos. Ficou de prontidão, seu farolete parecia ter vida, saltava acrobaticamente de suas mãos. Exatamente quando Jainir se deparava com aquele momento insólito, que lhe arrepiara até o mais aquecido pelo púbico, Seu Formiga dormia dentro da viatura estacionada num ponto estratégico próximo ao cemitério, podendo se dizer que seu sono era de pleno saltitar de carneirinhos. Roncava e rufava seu peito com pleno poder de um ditador militar. Padre Juca era, por assim dizer, um padre fora dos conformes. Até as pessoas de sua paróquia achavam aqueles momentos de percepção e visualização que só ele tinha, um tanto estranho para um pároco. Porém era acentuado esses momentos místico, justamente nas noites de lua-cheia. Essa noite não estava sendo diferente para Padre Juca. Exatamente naquela configuração noturna, a lua cheia parece que perturbava igualmente o coroinha da igreja, pois estava desperto numa insônia terrível. Olha para o teto de seu quarto, murmurava ao lembrar-se das encostadas que dera na gostosa que tocava o órgão da igreja. Ele, ao incensar a igreja em meio aquela fumaça toda, aproximava ao máximo da moça, e assim encostava seu”chuco”, como ele próprio costumava chamar aquela ferramentinha desprovida de volume, na pobre moça que só pensava em questões sacras. Jainir já estava esquentando sua calça com o líquido que fluía da incontinência urinária que o momento lhe oferecera. Seu farolete enlouquecido mirava a lua e tudo que representava o lado externo do cemitério, justamente pra buscar um socorro. Pois agora sabia que a prontidão do Dr. Delegado não seria eminente. Foi quando, então, viu dois jovens, ambos trajando roupas escuras, munidos de pincel e baldes contendo tinta. Ainda tremulo pensou o coveiro: -Estão a pichar os túmulos! Esse era outro fato corriqueiro que sempre acontecia no cemitério, fazendo com que o pobre do coveiro perdesse um tempo precioso limpando aqueles caracteres GÓTICOS que até então, eram atribuídos também ao violador de túmulos. Aliviado, Jainir suspirou e desprendidamente, pensou: -Se sobrar uma lata dessas, sou capaz de pedir aos dois, que pintem até meus cabelos brancos, ufa! Seu Formiga, mesmo sem ver aquela noite de Oscar que Jainir sinalizava com seu holofote, acordou incomodado por carrapatos que lhe sugavam os testículos. Numa dessas coçadelas, ele viu um pequeno luminar dentro do cemitério. -O Jainir! -pensou. E assim sai correndo até o local. Armado até os dentes, fez sua autoridade presente. Abordou o casal, diga-se de passagem, com uma austeridade desnecessária. Porém, notando logo que a garota se tratava da Angélica, tocadora de órgão que Padre Juca e os demais párocos tanto elogiavam, acalmou-se. E, por sua infelicidade, o garoto que acompanhava a jovem naquela ação negritante do desejo adolescente, nada mais era que seu sobrinho querido. Num flash, Formiga se lembrou das brincadeiras de seu sobrinho quando criança. Empunhando armas de brinquedo, o menino fingia ser o tio-herói numa ação policial. E assim Seu Formiga viajava seus pensamentos naquela lembrança: -Um dia, esse garoto vai ser da minha equipe – E vai ser dos bons… Um verdadeiro formiguinha! Jainir voltou pra casa com meia missão cumprida, deixando para trás o casal e o Delegado. Afinal, tratava-se de uma questão familiar. Não havia nada a se dizer, ainda mais, se tratando da família de autoridade da cidade. Porém, ao amanhecer, eis que vem o alarde: O pobre do velho leiteiro foi encontrado nu sobre a lápide e dessa vez com um líquido pegajoso nas entranhas. O povo da cidade, inconformado foi ter com o Doutor Delegado. Buscavam saber por que ele não botou as mãos no meliante, já que havia um plano, pois alguns populares viram movimento da ação do delegado no respectivo cemitério. Passados alguns dias, Doutor Guarapi foi obrigado a fazer uma viagem para capital. Estando ele na “terra da garoa”, tomou um trole (movido a cavalo) e foi logo resolver aquilo que lhe exigia a situação, pois tinha pressa. Queria voltar o mais rápido possível e continuar com os seus afazeres, que eram muitos na pequena cidade que escolhera para viver. Passava pelas ruas e deslumbrava em pensamento, todo aquele maravilhoso cenário de uma cidade grande. Ao olhar para seu lado esquerdo, viu o rio Tietê e notou que, em sua margem, estava acontecendo naquele momento um campeonato de natação. De onde estava, enxergava ao longe os nomes dos participantes. Um deles encabeçava a lista da faixa atada a uma árvore próxima. Era um tal”João Avelange”. Pensou Doutor Guarapi, acho que conheço esse cabra! Doutor Guarapi, em devaneio murmurou: -Como seria bom pertencer àquela Elite Paulistana, se entregar ao prazer de estar no topo da tendência nacional! Chegando ao local que fora resolver um assunto, trancou-se numa sala da qual saiu depois de duas horas. Retornando para casa num trem que seguia sentido oeste-paulista, escorregou seu chapéu a fim de cobrir os olhos e tentar dormir, pois o regresso lhe exigiria muita paciência. Porém, após um curto cochilo, foi obrigado a ouvir e sentenciar vários casos no decorrer da viagem. Casos que ouvia muitas vezes diferenciado e simultaneamente, bilateral, por assim se dizer. Ouvia do banco de trás e logo após emendavam outro do banco da frente, sem contar que do banco lateral, vinha um fedor do pum de outro caipira que seguia com outro caso ainda mais assombroso. Mas, foi em um desses falatórios dentro do trem, que o Doutor percebeu a gravidade do caso de sua cidade. Foi quando uma suposta testemunha, que comentava com outra pessoa, elas ocupavam o banco de trás ao qual ele se encontrava. Falou em bom tom ter visto que acontecia no cemitério da cidade, a pessoa dizia saber exatamente o quem mexia com os defuntos nas noites macabras. O mês era de agosto. O sol castigava exageradamente naquele ano. O cenário não era nada parecido com as características que marcavam aquele local. A pequena cidade tinha dias frescos e noites com névoas, assimilando um puro “fog londrino” , essa nevoa se estendia madrugada adentro. Em toda região do centro-oeste paulista, era comentada essa forma pitoresca que a cidade isoladamente do resto apresentava. Justamente numa dessas noites nada pitoresca da cidade, Padre Juca estava inquieto e também não compreendia aquilo que o afligia daquela for- ma, pois as perguntas lhe vinham sem respostas com freqüência: -Sou um representante divino ou um atormentado mancomunado com o demo? Foi assim, sem respostas que saiu Padre Juca da paróquia rumo à praça defronte a igreja, afim de apaziguar aqueles pensamentos que lhe atormentavam a alma. Nessa mesma noite de inquisição que Padre Juca se encontrava, estava outro inquieto a rememorar em sua cama, alguns momentos enfadonhos. Era justamente o coroinha, que se contorcia em sua cama em busca de orifícios em seu travesseiro ou mesmo no seu próprio colchão já esburacado pelo tempo de uso e também, de suas investidas pervertidas, pois introduzia sua “ferramentinha” nos buracos que via pela frente. Diga-se de passagem, que a espessura não importava para adentrar aquele que ele próprio denominava de “chuco”. Outro que também o sono não lhe pertencia naquela noite, era Seu Formiga. Estando ele ainda na delegacia, manipulava papéis e levantava fatos, por vezes simulando alguns, com expressão corporal própria, exigindo até do pobre bêbado que fora trancafiado por uma baderna naquela tarde. Dizia para o bêbado: -Oia… Você é a vitima agora, eu entro no cemitério e dou voz de prisão. Você está mortinho sem roupa viu… O coitado do bêbado sem saber que fazer e a mercê do delegado, concordava. Nesse momento, na estação, também Dr. Guarapi apeava do trem. Pessoas conhecidas, que estavam na gare o cumprimentavam e notavam o chapéu ainda a lhe cobrir parte da face. Jainir o coveiro, estava dormindo tranquilo nessa noite, pois tinha conseguido dobrar sua rabugenta companheira para a prática do sexo. Ainda permanecia no êxtase daquele sono que inconscientemente pedia pra não ser perturbado por nenhum enterro fora de hora. Estando ali, ainda sentado num dos bancos da praça, Padre Juca, ouviu o badalo da igreja sinalizar meia noite e meia. Ele, envolto ao transe da noite que aflorava seus pensamentos, porém repentinamente notou que o arbusto logo à sua frente movimentava-se. Curioso com aquilo se levantou, e foi conferir aquele fenômeno, já que não havia sinal algum de mudança climática ou muito menos um milagre, pois sabia ele não ser merecedor de um sinal ou qualquer presença divina. Doutor Guarapi cruzava a praça em sentido contrário naquele momento e percebeu também haver algo de anormal naquela noite. Continuou sua larga passada rumo a sua moradia. Justamente quando dera seu derradeiro passo sobre a calçada, foi acometido de súbito por um grito assustador, vindo da outra extremidade da praça. Ainda sustentava o seu pé esquerdo sobre o meio fio que dava acesso a rua que limitava seu lar. Foi quando viu Padre Juca lançando-se sobre ele, que caídos, embolavam-se em uma cena cômica. Padre Juca, agora agarrado à cintura do pobre Guarapi,apavoradamente pediu-lhe ajuda e disse-lhe ter visto o demônio em pessoa. Doutor Guarapi, caído sobre sua mala e com o Padre a sustentar a enorme barriga nas suas costas, disse sua muleta verbal mais frequente: -Eta porra, que foi que te mordeuPadre? Que caraio é esse??? Padre Juca se recompôs, e resolveu guardar para si o que vira, não comentando o fato com Guarapi. Assim, contornou a situação dizendo ao médico ter sido vítima do vespeiro da praça. Dr. Guarapi mostrou-se incrédulo, pois sabia das doideiras do Padre. Mas, para não perder a postura, disse: -Fala pro coroinha amanhã botar fogo nesse vespeiro que acumula aí no coreto! Boa noite, viu seu vigário. E saiu resmungando até sua casa. Padre Juca voltou para dentro da paróquia, ajoelhou-se em frente a uma imagem, e põe-se a conversar com o santo. Ele não sabia exatamente o que presenciara atrás do arbusto, porém, aquela visão perturbava a sua mente. Tentando buscar explicação para o que vira, perguntou para aquela imagem: – O que era aquilo atrás do arbusto. Um homem com cara de bode ou estava mascarado com um bode no colo? Será que era um ritual macabro? Sabe meu santo, acho que era o tinhoso mesmo! Padre Juca ainda remoia os seus pensamentos quando ouviu a porta dos fundos da igreja ranger. Pensou ele: “ Deve ser o coroinha, acho que perdeu o sono”. Assim, rumou até o fundo da igreja, onde se localizava o pequeno quarto do coroinha. Chegando próximo ao quarto, notou que o coroinha despia-se de um traje um tanto familiar, sem que ele notasse a presença do Padre, colocou todo aquele aparato num saco, depositando-o logo a seguir embaixo do assoalho através de uma tábua solta. O relógio da igreja marcava uma hora e quarenta e cinco minutos da manhã. Padre Juca, recolhido aos seus aposentos, elaborava formas para investigar o seu coroinha, e com o rosto enrubescido, ruminava o papel de bobo que fizera diante do fato. O coroinha, por sua vez, dormia tranquilamente em seu quarto. Vagando na rua nesse momento, estava Arnaldinho, que voltava de um forró que acontecia em razão aos festejos da padroeira do município vizinho. Vinha ele com o pensamento naquela morena que requebrava gostosamente aquele traseiro farto. Martirizava-se também, por não ser ele o par acomodado naqueles peitões, ziguezagueando salão adentro. Quando passava em frente à casa de Jainir, caiu de seus pensamentos mais privados para o mais pervertido, ao ver a mulher do coveiro sair nua da casa e dirigir-se ao córrego, que riscava o pequeno pedaço de terra que a família de Jainir possuía. Não teve duvidas, pensou: -Tenho que ver isso! E assim seguiu os passos daquela que nem chegava perto da morena do forro. Ele, porém pensou: -Ela tem a vantagem de estar aqui, trabalhada e pronta para o abate! – riu e complementou – Mesmo sendo muié do meu amigo Jainir, não posso perder isso. A lua nessa noite estava entrelaçada por um manto avermelhado. Quem vislumbrava esse momento profundamente era a tocadora de órgão, que nos momentos mais afoitos assumia a sua rebeldia gótica. Inquieta, caminhava para a varanda da casa seguidamente. Ia até a despensa pegar algo para comer, deitava em sua cama, virava-se para a direita e para esquerda sucessivamente, sem encontrar sossego. Resolveu, então, voltar para a varanda e olhar para a lua na tentativa de acalentar aquele desejo extra-humano que lhe possuía naquela noite. Ao chegar perto do balaustre, que enfileirava a sacada de seu quarto, que localizava- se em um sobrado alto que perfilado entre morros, dava uma vista linda das fazendas que rodeavam a cidade. Olhou para a lua e baixando seu olhar no horizonte, percebeu uma figura! distante, porém familiar, que cruzava o pasto que circundava a cidade. Pensou: -E o Seu Formiga! -Mas porque está andando no pasto? Além do mais a essa hora, que estará fazendo? Caçando formigas talvez… – rindo, resolveu esquecer aquilo, já que a figura do Delegado se mostrava muito distante, pasto adentro. Naquela noite, Doutor Guarapi entrou em sua casa em busca de um bom banho. Além de querer tirar o fedor da grande viagem que fizera, tinha ainda o fato de esparramar-se no chão a ostentar aquele padre da “moléstia”, (como ele próprio dizia) . Tomou o merecido banho, ensaiou algumas ginásticas e foi comer a buchada, que comprara na capital. Ainda que embalada por panos, num artefato caseiro, ela exalava um cheiro que só o Doutor Guarapi suportava. Comeu a buchada com avidez de um lobo e como tal, após aquilo cair goela adentro, soltou um tremendo arroto, lembrando de fato o uivar de um lobo feroz. Finalizou aquilo, com uma tremenda indigestão, que já se formava em desarranjo intestinal, um estrondoso pum , o fez pensar: -Tenho que andar pra me livrar disso… Andar vai me fazer bem! E seguiu-se mais um pum, que poluiu ainda mais aquele ambiente. Assim, saiu o Doutor Guarapi, naquela caminhada pela alameda que separava sua casa do centro da cidade. Resolveu ainda, nesse caminhar, ir um pouco além dos limites da cidade, para presenciar a alvorada que logo estaria por vir. O sol despontara naquele dia com um ar zombeteiro, parecendo até, esconder traquinices de garoto arteiro. Naquela manhã, Seu Formiga fora desperto por muito alvoroço em frente a sua casa, os populares pediam explicações sobre os acontecimentos e especialmente pelo último morto, o leiteiro, que novamente havia sido molestado em sua cova. Seu Formiga pediu calma e sugeriu que apenas dois representantes adentrassem no pequeno escritório que mantinha em sua casa. Escolhido os representantes, o povo se manteve ao redor da casa, pois exigia explicações e não deixaria de tê-las naquele dia. Um mais afoito gritava e levantava uma bandeira: -É o começo de uma revolução! Seu Formiga acomodou os dois representantes em seu escritório e pediu permissão para se recompor, pois acabara de levantar, e mostrava-se vulnerável. Estando de pijama, sabia que não conseguiria colocar em uso sua autoridade ditatorial. Demorou alguns minutos, e voltou com duas xícaras de café, servindo ele próprio os dois representantes. Depois, acendeu um charuto, limpou a garganta de um pigarro e disse: -Vamos ao que interessa! Que aconteceu dessa vez? Porque todo esse alvoroço? Foi quando um deles falou: -Sabe seu doutor, essa noite o pobre do leiteiro amanheceu novamente pelado e sobre o túmulo, então nós queremos providência. Mal acabara de falar, a conversa já estava sendo atropelada pelo outro representante: -É sim! Queremos explicações, que negócio é esse! Não faz nem uma semana da morte do coitado e já foi perturbado várias vezes! Queremos montar uma comissão de investigação, paralelamente. O povo vai eleger essa comis- são e vamos botar fim nisso. Seu Formiga já estava no seu limite, porém, com as mãos atadas. Sabia ele que a situação exigia certa diplomacia. Resolveu, assim, concordar com a tal comissão, contanto que a palavra final e a forma de tirar a confissão do patife assim que fosse encontrado, seria ministrada por ele, é claro que já pensando em levar vantagem sobre a situação. Assim, foram levadas para os populares as condições ora seladas. Depois de muitas controvérsias, o povo acabou por aceitar aquele acordo com Seu Formiga. Na mesma hora, elaboraram um tipo de sorteio e assim se formou uma comissão composta por treze membros, já marcando também a primeira reunião e intimação para os principais suspeitos da cidade. A data da primeira reunião estava marcada para o próximo sábado e o primeiro a ser ouvido seria Jainir o coveiro. Na manhã seguinte ao acordo, em todos os lugares ouvia-se a respeito da investigação que a comissão começara a montar. Ouvia-se na venda, na roça e até mesmo na igreja. Todos comentavam sobre a mesma coisa. A semana foi recheada por esse diz que me diz, ora culpando-se um, ora absolvendo- se outro, e assim a coisa foi mexendo com o imaginário da população dando forma a uma espécie de desequilíbrio coletivo. O irracional tomou conta de todos. A cidade, que era tranqüila, afundou-se na desconfiança e na intolerância. Doutor Guarapi, vendo aquela situação, tratou de fazer um telefonema misterioso para a capital. Dizem que a moça do posto telefônico, também imersa naquele temporal investigatório, chegou a encostar o ouvido na divisória da cabine telefônica para ouvir o que o Doutor Guarapi sussurrava, tamanho era o seu cochicho passando fio adentro as informações para seu interlocutor e inundando de saliva o bocal do telefone. Já era sexta-feira, o ânimo da cidade ainda não havia amornado, porém fora quebrado quando um forasteiro desceu do último vagão do trem. Esporadicamente, o trem encostava-se à estação além das seis horas e trinta minutos da manhã. Misteriosamente, quem estava na estação e bancando o cicerone para o forasteiro, era justamente o Doutor Guarapi, que foi com braços abertos receber aquela figura alta e misteriosa. Trajando terno e chapéu branco, com cabelos louros encaracolados e alongados na altura do ombro, mostrava também um bigode ralo, com um pequeno cavanhaque a lhe cobrir o queixo um tanto avantajado. O rapaz da bilheteria, nessa hora já havia comunicado para a estação inteira que presenciara o encontro, ouvindo também quando o Doutor Guarapi . disse: -Meu querido primo Bill, seja bem vindo! Sei que a merda desse trem não lhe proporcionou uma boa viagem, mas vai descansar confortavelmente em minha casa! Tomando um café, e já alojado, o Bill em questão ouvia atentamente o que o seu primo Guarapi lhe passava a respeito dos acontecimentos da cidade. Doutor Guarapi abreviou o assunto, dizendo: -Descansa meu querido primo, quando acordar, comemos um sarapatel arretado, eu mesmo fiz, visse? E depois você toma as rédeas dessa porra de cidade. Tenho certeza que vai colocar essa merda nos eixos. Bill, apesar de ser oposto ao seu primo Guarapi, trazia os traços da mistura holandesa que seus antepassados fundiram no decorrer dos séculos. A comissão formada invadiu o barracão de festa da igreja. Em uma bravata sem fim, a tocadora de órgão da igreja, tomava a frente daquela comissão sem ao menos pertencer a ela. Tentava valer sua opinião filosófica que desfocada por completo fica o tema daquela reunião. Com palavras e gestos, ela tenta colocar mais fogo naquilo que já está fora de controle. Nessa hora, Seu Formiga montou em seu cavalo e tentou sair de fininho, quando, então, foi abordado por Doutor Guarapi e seu primo: – Peraí cabra, vou te apresentar alguém competente pra essa situação! Esse é meu primo, ele é da policia federal. Quando fui pra capital coloquei-o nos conformes do que estava acontecendo aqui. Apresentou seu primo com todas as credencias possíveis. Naquele momento, Seu Formiga viu o mundo cair a sua frente. Bill era um alto funcionário do Estado. Tinha “status’ de ter sido treinado nos Estados Unidos. Fora locado por muitos anos ao governo federal e ag

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