Globo temia polêmica com “Casseta & Planeta”; leia trecho da biografia de Bussunda


Para que o programa “Casseta & Planeta Urgente” pudesse estrear, em 1992, o diretor de operações José Bonifácio de Oliveira Sobrinho teve que driblar a desconfiança de Roberto Marinho, chefe supremo da emissora. Na ocasião, ele achava o humor dos redatores pesado demais para o horário nobre. A esperança de Boni residia no “gordo e debochado” Bussunda. Para ele, não tinha como o público não enxergar uma certa dose de doçura no humorista.

Essa e outras histórias são contadas pelo jornalista Guilherme Fiuza em “Bussunda – A Vida do Casseta”. A biografia de Cláudio Besserman Vianna (1962-2006) explica porque ele se tornou uma das figuras mais amadas do Brasil, conquistando pessoas de todas as idades e classes sociais.

Além de traçar um perfil revelador do comediante, o autor reconstitui o nascimento do “Casseta & Planeta” e relata a trajetória de seus outros integrantes desde a época em que eles faziam parte dos jornais humorísticos “Casseta Popular” e “Planeta Diário”.

O livro já se encontra em pré-venda na Livraria da Folha.

Veja no trecho reproduzido a fase de transição dos humoristas do meio impresso para a televisão e a estreia do programa na Globo.

CAPÍTULO 1

Quem mandou nascer b…

A porta da sala de Roberto Marinho na TV Globo se abriu e de lá saiu um homem com uma tonelada nas costas. Uma tonelada de responsabilidade e risco. José Bonifácio de Oliveira Sobrinho tinha recebido um aviso do chefe supremo. A mais nova atração da emissora, prestes a estrear, não poderia ir ao ar daquela forma.

O programa chamava-se Casseta & Planeta Urgente, e o doutor Roberto não gostara do que vira:

– Nós vamos ter problema. O público vai reclamar da grossura. Esse humor é escatológico. Vamos dar uma maneirada nisso aí – determinou o presidente das Organizações Globo a Boni, o diretor de operações.

A denominação do cargo, no caso, escondia a face real de seu ocupante. Diretor de operações era o nome fantasia para feiticeiro. Boni era o pajé da Globo. Só uma pessoa confiava mais nele do que Roberto Marinho: ele mesmo. E decidiu driblar o patrão.

Recebeu o alerta, e ao fim do percurso de volta à sua sala já decidira fingir que não ouvira direito. Achava que o doutor Roberto tinha razão quanto à grossura do humor encarnado por sete homens feios, debochados e desconhecidos. Mas algo lhe dizia que aquilo ia dar certo. Como era uma fórmula nova, a aposta teria que ser no escuro.

As palavras do chefe martelaram na cabeça de Boni naquele março de 1992: “Isso aí é pesado. Esse pessoal é perigoso.” Roberto Marinho estava visivelmente assustado com o conteúdo do novo programa. Ele sabia do que seus autores eram capazes. A revista Casseta Popular e o jornal O Planeta Diário, que projetaram seu humor anárquico, tinham forçado todos os limites da abertura política no governo Sarney – amigo e aliado do dono da Globo:

Presidente está indo longe demais:
Depois da China, Sarney irá à merda – anunciava a manchete do Planeta em julho de 1988.

A batalha no Congresso Nacional pela prorrogação do mandato presidencial também rendera notícia no jornal falso, em abril de 88:

Sarney se queixa à Defesa do Consumidor:
Deputados comprados vieram com defeito.

A Igreja, outro pilar do sistema e ponto sensível na programação da emissora, também já tinha sido profanada pelo grupo. Uma edição da Casseta em 1987 anunciava que “Cristo chegou”. Segundo a “reportagem”, Jesus desembarcara no Aeroporto Internacional do Galeão e estava irritado: tinha sido retido pela Polícia Federal por sua aparência suspeita (“cabeludão, barbudo e quase despido”).

Depois do contratempo, o messias tinha sido bem recebido pelos populares no saguão. Com exceção de um grupo de manifestantes da CUT, que estendera uma faixa no balcão da Varig: “Cristo Go Rome.” Nenhuma gráfica aceitou rodar a capa com o “furo” da chegada de Jesus Cristo, mas a edição da Casseta circulou com a reportagem completa nas páginas internas.

Outra cobertura “religiosa” acabaria na polícia. Com a edição do Planeta de dezembro de 85, sob a manchete “Papa bota ovo na Missa do Galo”, os editores do jornal foram parar na delegacia, alvos de uma queixa-crime. Iam ficando por lá mesmo, até surgir o advogado Técio Lins e Silva para explicar o jornalismo surrealista às autoridades.

Era evidente que essa linha editorial desvairada no horário nobre da Globo ia dar problema. E a tensão de Roberto Marinho tinha outro motivo forte. Em apenas três anos, a emissora tinha sofrido dois golpes duros da concorrência. A perda de Jô Soares para o SBT deixara um buraco na faixa de humor da programação. E o sucesso estrondoso da novela Pantanal, da Manchete, expusera uma inédita vulnerabilidade dos campeões de audiência. Naquele momento, mais do que nunca, errar não estava nos planos.

E ainda tinha o sexo. Os autores/apresentadores do Casseta & Planeta Urgente pareciam ter uma casa de tolerância na cabeça. Não desperdiçavam qualquer possibilidade de casar o duplo sentido com a canalhice. Cerca de um ano antes, após o romance explosivo entre o ministro da Justiça, Bernardo Cabral, e a polêmica dama de ferro da economia, Zélia Cardoso de Mello, o Planeta veio com a manchete:

Bernardo Cabral diz que ministra da Economia deu certo.

Em 1989, a capa da edição mais vendida da Casseta – cerca de 100 mil exemplares – trouxera o então candidato a presidente Fernando Collor, o “caçador de marajás”, nu da cintura para baixo, levemente virado de costas. A matéria anunciava toda a verdade sobre o “caçador de maracujás” – sendo a sílaba intrusa uma delicada referência ao que a foto mostrava. Coisa de moleque.

O problema era que os autores levavam a sério sua molecagem, e ela andara fisgando gente grande. Grande como o feiticeiro da Globo. Boni entrara num show dos redatores da Casseta e do Planeta, no Rio, e ficara cismado.

Nas horas vagas entre os absurdos jornalísticos, eles escreviam absurdos musicais – e, num vácuo da programação do pequeno Jazzmania, tinham ido parar em cima do palco. A brincadeira mais uma vez ficou séria e levou-os ao Canecão. Boni foi ver o que era aquilo.

Era o amadorismo mais profissional que já vira. Pegou-se rindo de um jeito diferente, ao assistir à interpretação radiante de Eu Tô Tristão, um “samba-exumação”:

Eu tô tristão, tô sofrendo pra caralho
Eu me fudi, sou carta fora do baralho.

A paródia da alegria carnavalesca enfiava um enredo depressivo no ritmo frenético das escolas de samba. Bizarro. Era o desabafo de um corno consciente, que se percebe chato e “meio mais ou menos”, com tudo para dar errado: “quem mandou nascer babaca”.

A cisma de Boni era que aquele espetáculo trash tinha tudo a ver com televisão. Mas nas discussões internas na emissora, era claro o temor geral quanto a estrelar uma Terça Nobre com sete boquirrotos, feios e anônimos. Eles tinham chegado à Globo como parte do time de redatores do humorístico TV Pirata. Depois participaram do programa Dóris para Maiores, que misturava jornalismo e humor – onde fizeram suas primeiras aparições na tela como repórteres “especiais”. Dois diretores chegaram a propor que fossem testados homeopaticamente em outros programas, para que o público se acostumasse com suas caras (de pau).

Boni não quis saber de homeopatia. Tinha que ser de uma vez só, uma Terça Nobre só deles. Um soco. O diretor Carlos Manga convergiu: “É, põe os caras. Se ficar uma merda, tira do ar.” Mas Boni já tinha combinado tudo com a bola de cristal: não ia ficar uma merda.

Passando ao largo das dúvidas – e da advertência de Roberto Marinho -, o feiticeiro bancou o risco. E a certeza cega de sua aposta tinha nome: Cláudio Besserman Vianna, o Bussunda.

Quando as palavras preocupadas do chefe vinham à sua cabeça, era a figura de Bussunda cantando o “samba-exumação” Eu Tô Tristão que não o deixava recuar. O velho homem de TV estava cada vez mais convicto de que, ao botar aquele gordo debochado no ar, o que era grossura para o doutor Roberto viraria doçura para o público. Bussunda era sacana como uma criança endiabrada. Não ia ofender ninguém.

Essa era a teoria de Boni. Mas chegou o dia da prática. Na noite de 28 de abril de 92, ao assistir à estreia do Casseta & Planeta Urgente, o diretor de operações sentiu um calafrio. Nada de arrependimento, apenas a certeza de um dia seguinte tumultuado. Aquele “humor escatológico” no horário nobre de terça não prometia uma quarta muito nobre. Ia render, no barato, um caminhão de reclamações. Boni precisaria se municiar de argumentos fortes para enfrentar o doutor Roberto.

Na manhã seguinte, seu primeiro ato depois de escovar os dentes foi consultar a Central de Atendimento ao Telespectador, o para-raios das queixas à Globo. Precisava conhecer o tipo predominante de reclamação, para saber em qual faixa de público a rejeição ao programa tinha sido maior. Mas o funcionário da CAT não tinha essa informação.

Nem essa, nem outra:

– O atendimento está zerado pro Casseta & Planeta. Ninguém telefonou.

Não era possível. Boni acreditava numa boa receptividade, mas não se lembrava de ter posto uma fórmula nova no ar sem uma queixa sequer. Checadas, as linhas da central pareciam tecnicamente ok. Ainda estava cedo, era preciso domar a ansiedade e esperar a avalanche, que fatalmente viria. Com o passar das horas, porém, o placar da CAT teimava em não sair do zero. E não sairia.

Na sala do diretor de operações, a secretária também não tinha nenhum recado para o chefe. Ele não fora procurado pelo cardeal – nem o da Arquidiocese, que ligava de vez em quando, nem o da Globo, que ligava sempre. Com a pista livre, Boni foi verificar os índices de audiência: os cassetas grosseiros e anônimos tinham superado os trinta pontos no ibope. Sucesso total. Com a alma lavada e os números mágicos na mão, o diretor correu à sala de Roberto Marinho.

O chefe ficou feliz com as notícias sobre a ampla aceitação do público. Mas continuava ressabiado:

– Boni, eu acho pesado. Vai ser sempre assim?
– Não, doutor Roberto. Quando os rapazes ficarem mais à vontade vai piorar um pouquinho…

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